No dia 16 de maio de 2016, eu e minha mãe estávamos limpando o jardim, abrimos o portão grande que dá para a rodovia e começamos a levar folhas e galhos para fora. A primeira vez que saí, vi lá na ponte, uma cachorrinha olhando para a rodovia, pequena, cabeça com os pelos arrepiados. Chamei-a e ela veio, meio ressabiada, chegou perto, vi que era fêmea, magrinha, com os pelos do dorso todos enrolados, cheios de terra e carrapicho. Peguei ração, dei, ela ficou com medo, mas comeu muito, depois começou a entrar mais no jardim, tomou muita água. Minha outra cachorra, Lilica, e os gatos cheiraram a cachorrinha, mas não fizeram mais nada. Infelizmente, nesse dia ela começou a chorar e eu a deixei sair.
Uma semana depois, ao sair do trabalho às 11h, parei em um bar perto da praça para comprar refrigerante, e vejo a cachorrinha deitadinha perto do posto de gasolina. Chamei-a, ela me reconheceu, veio até mim, esperou na porta do bar, acompanhou-me até o carro, entrou e a trouxe de novo pra casa. Novamente, ela comeu muito, tomou água e leite, brincou comigo, mas quis sair e eu deixei.
Mais sete dias, chego em casa e vejo a cachorrinha aqui. Minha mãe a pegou, pois ela estava perto do mercado com muitos cachorros querendo judiar dela, e ela deitadinha. Minha mãe a pegou e a trouxe. Dessa vez, ela ficou. Dei banho nela com shampoo de Cetoconazol, cortei alguns emaranhados de pelos, mas mesmo assim combinei com a dona do petshop daqui se ela daria banho e tosaria minha cachorrinha de rua, disse também que até pagaria mais pois estava feio. Assim foi feito, e a Futrica ficou diferente, linda, perfumada, cheirosa.
Assim, começou história dessa cachorrinha aqui em casa: esperta, inteligente, carinhosa, amorosa, amiga... brincava comigo e com minha mãe, nunca correu atrás dos gatos, conhecia o barulho do meu carro e me esperava todos os dias, assistia a tv comigo deitada no colchão, encostadinha em mim, me olhando, dormia nas cobertinhas dela do lado da minha cama e, de manhãzinha, pulava na cama e dormia comigo. As misturas da janta e do almoço metade eram dela, pois a danadinha sentava-se me olhando e eu não resistia àquele olhar pidonho e cheio de gratidão.
Porém, percebi que de repente ela engordou muito e estava grávida. Parei o vermífugo imediatamente. Ficamos felizes, mas ela não conseguiu dar cria. Levei-a ao veterinário, fez cesárea, estavam podres os cachorrinhos. Mediquei-a certinho e ela voltou a ser a Futrica de sempre!
No dia 06 de agosto, estávamos eu e ela sentados no alpendre, quando percebi que ela deu uma cambaleada. Na hora levei-a ao veterinário, fez exame de sangue e da ramela dos olhos dela e constatou que estava com a doença do carrapato e início de cinomose. Comprei todos os remédios, ela tomou certinho (os de 8h em 8h, e os de 12h em 12h), também bati no liquidificador quiabo com água e ela tomava três vezes ao dia. Mudei a alimentação dela: além da ração normal, muita ração úmida, carne cozida, cubos de linguiça calabresa que ela adorava. Porém, no dia 15 de agosto, ela parou de andar. As patinhas traseiras não sustentavam o corpo dela. Diariamente, dava banho nela (parte traseira do corpinho), pois o xixi que ela fazia molhava todo o pelo dela. Já o cocô era durinho, igual antes. Eu a carregava no colo para todos os lugares! Não a deixava um minuto sequer. Conversava com ela, a acariciava enquanto dormia ou andávamos aqui pela nossa casa. Na quinta-feira, dia 18 de agosto, mediquei-a e dei comida, e fui trabalhar às 12h. Ao chegar em casa às 16h, minha mãe veio me encontrar e contou que às 15h ela viu que a Futrica estava com sede (língua de fora), pegou a seringa, colocou água benta, deu para ela que tomou duas seringas grandes cheia. Olhou para minha mãe, fechou os olhos, suspirou e morreu.
O mundo acabou para mim. Peguei-a no colo, estava quentinha ainda, mas já começando a endurecer. Cheirei a cabecinha dela (cheiro do banho), beijei-a muito, conversei com ela, agradeci pela amizade, amor, companheirismo, por fazer dos dias de uma pessoa solitária momentos coloridos... fiquei muito tempo sentado na cadeira com ela no meu colo, passando minha mão na cabecinha dela. Deixei-a, fui fazer o buraco para enterrá-la, peguei-a, embrulhei-a na toalha favorita dela, e ela descansou...
Depois disso tudo, acabou o dia para mim... fiquei mudo, quieto, solitário. Fui trabalhar, conversei com pessoas, mas queria estar aqui em casa, com ela. O pior era chegar em casa e não ter ninguém para me encontrar, brincar comigo. Não ter aqueles olhinhos lindos e ela pulando nas minhas pernas para eu pegá-la. Não vê-la acompanhar o carro até a garagem e, quando eu abria a porta, ela pulava dentro... enfim, não ter a Futrica aqui.
Agora, esperar o tempo amenizar essa dor que me rasga por dentro.
Ti amo, Futrica!!! Muito, muito, muito... você sabe disso.
Obrigado, obrigado, muito obrigado.