Num belo momento percebemos
que não sobrou mais
alternativa alguma. Todas as esperanças se esgotaram. Os
telefonemas doloridos, as mensagens cuidadosamente compostas, encontros
aleatórios forjados e demais rituais do pós-término simplesmente cessaram.
Diante de nós um passado cada vez mais distante e uma estrada a se percorrer.
Assustadoramente promissora.Quando
nos pegamos de frente para a necessidade de seguir, temos a ilusão de parecer
mais fácil permanecer parado, esperando por um milagre. Nos seguramos a
qualquer pequena certeza que possa trazer a mínima expectativa de tê-la de
volta.
Vasculhamos emails,
procuramos por fotos em redes sociais, forçamos caminhos, vamos aos mesmos
lugares para gerar novamente "coincidências" que tornem possível um
reencontro. Tudo porque queremos, desesperadamente, estar errados e ver que
aqueles filmes que assistíamos juntos falavam a verdade.Os
dias vão correndo, a eles juntam-se semanas, meses e em alguns casos extremos,
até anos. Tudo depende de uma escolha pessoal, simples e objetiva. Pegar a
estrada e avançar.
Somos habituados a enxergar
os acontecimentos na vida como se estivéssemos dentro de um jogo. Seguimos uma
lógica dualista, preto e branco, bem e mal, ganhar ou perder. Lógica
responsável por grande parte das aflições que nos atingem. Some a isto uma boa
dose de autocentramento e temos uma bomba de sofrimento, prestes a explodir,
diante de qualquer instabilidade.O
referencial autocentrado se transforma no principal obstáculo quando estamos
diante da possibilidade de seguir nosso caminho. É ele que se veste de culpa e
medo fazendo-nos estagnar. É ele que nos força a tentar vencer,
moldando as circunstâncias exteriores a nosso favor. O grande
problema é que, muitas vezes, este "a favor" não é tão favorável
assim.Entramos
em uma espécie de limbo emocional, ao tentar recuperar condições que não mais
existem. Deixamos de abrir espaço para que novas oportunidades floresçam, mesmo
sabendo ser inviável o retorno ao passado. Insistimos em bater com a cabeça na
parede, atacando nossa mente com perguntas sem resposta, forçando sentido numa
busca para ter quem desejamos. Porém, esquecemos que, na realidade, tudo o que
queremos é cessar o sofrimento – só que tentamos por meios equivocados.Permanecer
preso a um relacionamento, por mais insensato que possa parecer, é um mecanismo
de busca pela
felicidade por meio da fuga. Fuga do sofrimento que acabará
apenas movendo a engrenagem, gerando um pouco mais dor.Por
acreditarmos num ideal de felicidade eterna, seguimos repetindo erros, tapando
buracos, administrando dor e confusão em pequenas doses semanais. Ficamos
dentro da prisão sob a condição de poder aprisionar o outro também. Tentamos
evitar que a felicidade escorregue pelos dedos, num processo
obsessivo-compulsivo. Somos ingênuos a ponto de acreditar que basta resgatar determinadas
condições para cessar a dor
Claro, parece muito lógico.
Se antes eu estava feliz e agora que ela me deixou eu sofro, evidentemente, se
conseguir reestabelecer a relação, voltarei a ser feliz. O problema que a
lógica deixa escapar é o fato de que tudo, invariavelmente, muda. Mesmo
trazendo a pessoa de volta ao seu convívio, a bomba permanecerá ali,
tiquetaqueando, esperando uma oscilação para explodir novamente.Não
adianta ficar parado, remoendo dores do passado, imaginando que isso o impedirá
de viver novas dores no futuro.

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